
Alguns anos atrás, movimentos de autoaceitação que buscavam promover o autocuidado genuíno trouxeram mudanças significativas e positivas para a forma como lidamos com os corpos fora do padrão estético tradicional. No entanto, recentemente, esses movimentos têm perdido força. Diversas personalidades que antes pareciam se orgulhar de corpos fora do padrão passaram a buscar a perda de peso, aproximando-se cada vez mais do ideal estético da magreza, muitas vezes extrema.
É importante destacar que optar por perder peso ou levar uma vida mais saudável não é, em si, um problema. A verdadeira questão surge quando essa decisão é motivada por pressão estética, pela busca por aceitação ou pela tentativa de se encaixar em espaços que, mesmo com a perda de peso, dificilmente irão acolher esses corpos.
Y2K e o “Heroin Chic”: a volta dos padrões extremos
Durante os anos 2000, ser magra era praticamente uma exigência. As redes sociais ainda não tinham o peso que têm hoje, o que tornava a propagação desses padrões um pouco mais lenta, mas não menos nociva. Um dos grandes ícones dessa época foram as calças jeans de cintura baixa, que exigiam, segundo os padrões da época, uma barriga extremamente “seca” para serem usadas.
Outro padrão problemático foi o chamado heroin chic, que romantizava a aparência de modelos muito magras, com traços associados ao uso de drogas, como olheiras, palidez e ossos aparentes. Esse padrão retornou com força nos últimos tempos, acompanhando a tendência do resgate estético Y2K.
Ozempic e a banalização de medicamentos para emagrecer
A busca pelo emagrecimento sempre foi uma obsessão social. Dietas restritivas e o uso indiscriminado de medicamentos se tornaram comuns, muitas vezes sem acompanhamento médico. Um exemplo recente é o Ozempic, medicamento originalmente desenvolvido para tratar diabetes tipo 2, mas que ganhou notoriedade como “solução rápida” para emagrecimento.
No Brasil, até abril de 2025, o medicamento podia ser comprado sem retenção de receita. A partir de 16/04/2025, a Anvisa passou a exigir a retenção da receita médica, após o uso indiscriminado da substância se tornar um problema de saúde pública. Apesar do preço elevado (cerca de R$ 1.000,00 por caneta), a demanda continua alta.
Esse é o fim dos movimentos de corpo positivo?
Com a popularização das redes sociais, o Body Positive Movement (Movimento Corpo Positivo) ganhou força, especialmente com a atuação de influenciadoras. No Brasil, o movimento foi fortalecido por Alexandra Gurgel, jornalista e criadora do Movimento Corpo Livre, gerando transformações significativas no discurso sobre corpo e autoestima nas redes.
No entanto, nos últimos anos, outras personalidades que representavam a causa passaram a perder peso e, gradualmente, a se desvincular do movimento. Isso gerou críticas sobre a possibilidade de que alguns tenham usado a causa apenas enquanto esteve em alta.
Apesar da perda de força recente, o impacto do movimento não pode ser ignorado. Ele abriu espaço para o questionamento dos padrões impostos e ajudou muitas mulheres e meninas a se verem representadas. Aqueles que realmente entenderam a importância da diversidade corporal provavelmente continuarão resistindo aos padrões estéticos que mudam a cada geração.
Fontes:
Ozempic e o retorno do culto à magreza extrema
A febre do Ozempic e volta do corpo supermagro
Magreza anos 2000: os perigos da retomada do padrão de moda
Anvisa exige retenção de receita para venda de Ozempic e similares
SOUZA, Carolina Duó de. Body Positive – estudo de caso nas mídias digitais.Curso de Especialização em Estética e Gestão da Moda, Escola de Comunicação e Artes-USP. São Paulo. 2019.
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